Por Roberta Machado

A cada segundo, 15 animais silvestres são atropelados nas estradas brasileiras. O cálculo, feito pelo Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas (CBEE), representa 1,3 milhões de animais vitimados pelo trânsito diariamente no país, ou 475 milhões por ano. Se a estimativa parece exagerada, é porque a grande maioria desses incidentes passa despercebida pela população, dificultando inclusive a avaliação do problema e suas causas.

Buscando produzir um diagnóstico mais detalhado e real dos atropelamentos de animais selvagens no Brasil, o CBEE desenvolveu uma rede colaborativa que registra os incidentes ocorridos no país em um único banco de dados. O projeto se chama Sistema Urubu, e é baseado em um aplicativo que pode ser baixado e usado gratuitamente a partir de qualquer smartphone com câmera.

Ao ver um animal atropelado, o usuário tira uma foto e envia o registro para o banco de dados do sistema. As imagens são depois examinadas por avaliadores, que fazem a descrição dos animais fotografados. O sistema apelidado de Urubu Web verifica as avaliações e manda os registros para aprovação final. Todos os dados são compilados em estatísticas e incluídos em um mapa interativo, onde é possível visualizar as ocorrências registradas.

“Nos perguntamos como podíamos obter dados de diferentes pontos, com registros de qualidade e que isso pudesse ser usado para planejamento e gestão. Foi natural chegar à conclusão de que o celular que está na mão de todos hoje em dia é uma ferramenta de coleta de dados”, conta Alex Bager, coordenador do CBEE e criador do Sistema Urubu.

Rede colaborativa

Os primeiros resultados do levantamento já revelam muito sobre as maiores vítimas do trânsito brasileiro. Os pequenos animais como anfíbios, pequenos roedores e aves de pequeno porte representam 90% dos atropelamentos. Os de médio porte, como lebres, corujas, gambás e alguns primatas, são 9% dos animais que morrem nas estradas do país. Os de grande porte, como capivaras, tamanduás e lobos guarás compõem uma fatia de 1% – que parece pequena, mas representa mais de 5 milhões de animais cuja perda causa um grande impacto ambiental.


Imagem: Urubu Map

Com base nos dados reunidos, sistematizados e disponibilizados pelo sistema, o grupo espera compreender melhor o quadro de mortalidade da fauna selvagem nas rodovias, identificando que lugares têm maior impacto para qual espécie, os riscos para a viabilidade dessas populações, e que trechos de rodovia devem ser objeto de ações para reduzir os atropelamentos.

“O Sistema Urubu é a ferramenta necessária para um diagnóstico preciso e a comprovação que faltava que precisamos agir, precisamos dar a devida atenção a este quadro destrutivo”, ressalta Isaac Albuquerque, membro da Comissão Nacional de Animais Selvagens do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CNAS/CFMV).

As informações estão publicamente disponíveis na internet, e podem ser usadas pelo governo e pelas concessionárias responsáveis pelas estradas na tomada de decisão para a redução desses impactos. Os dados levantados pela CBEE inspiraram, por exemplo, a criação do projeto de lei 466/2015, em tramitação em regime de urgência na Câmara, que institui a adoção de medidas que auxiliem a travessia da fauna silvestre, como a instalação de redutores de velocidade, passarelas, cercas e refletores nas estradas brasileiras.

São mais de 17 mil usuários cadastrados no Sistema Urubu.  Quem tiver interesse em colaborar com a iniciativa pode baixar o aplicativo e enviar imagens para o sistema. Professores e pesquisadores com experiência com identificação de fauna podem se cadastrar como validadores no portal. O projeto conta com mais de 800 profissionais registrados para avaliar e descrever as cerca de 500 fotografias de anfíbios, répteis, aves e mamíferos flagrados todos os meses pelo sistema.

No dia 13 de novembro o grupo vai promover o Dia Nacional de Urubuzar, que vai mobilizar diferentes pontos do país para colaborar com a iniciativa. Em 2014, mais de mil pessoas participaram do dia dedicado ao Sistema Urubu. Neste ano, o grupo espera unir 250 locais em função da identificação de animais atropelados. “É fundamental que a sociedade e principalmente os profissionais direta e indiretamente ligados à fauna e meio ambiente participem eficaz e efetivamente deste processo”, aponta Issac Albuquerque.

Médicos veterinários podem ajudar

Entre os validadores que garantem a confiabilidade dos dados registrados no Sistema Urubu estão médicos veterinários, biólogos e engenheiros florestais. Os profissionais se registram de acordo com a sua formação, avaliando o tipo de animal que conhecem melhor. “Se os médicos veterinários que têm uma capacitação maior tiverem condições de contribuir como validadores, seria uma coisa incrível”, ressalta Paloma Bosso, integrante da Comissão de Ética, Bioética e Bem-estar Animal do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV).

Mas a médica veterinária também aponta que todos podem colaborar com a rede, independente da área de atuação. “É uma atribuição muito importante do médico veterinário atuar na proteção da fauna, e é muito provável que eles se deparem frequentemente com atropelamentos. Se tivermos um número de médicos veterinários instalando e usando o sistema, maior será a cobertura monitorada”, avalia Paloma.

Saiba mais

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Fonte Assessoria de Comunicação do CFMV (acesso em 16/11/16)