26 de setembro de 2016

Por Flávia Lôbo

O Brasil é um dos principais países produtores de proteína animal no mundo, especialmente carne bovina, de frango e suína. Esse protagonismo tem sido em decorrência de vários fatores, dentre eles um clima favorável, terras abundantes, mercado interno importante, tradição nas criações, acervo científico e tecnológico e a participação efetiva de profissionais comprometidos na produção.

As questões que envolvem o tripé – sustentabilidade, impacto ambiental e biodiversidade – são consideradas complexas de serem harmonizadas dentro do mercado de produção de proteína animal, pois envolvem interesses dos diferentes setores, muitas vezes antagônicos.

O país tem assumido nos últimos anos compromissos internacionais com a sustentabilidade e biodiversidade, como o Acordo de Paris, assinado este mês pelo presidente Michel Temer, em Paris.

A preocupação com as mudanças climáticas é uma realidade, mas, na opinião do presidente da Comissão Nacional de Assuntos Políticos do Conselho Federal de Medicina Veterinária (Conap/CFMV), Júlio Barcellos, ajustes que o país assume muitas vezes podem se tornar futuras barreiras, como quando se impõem normas que têm exclusiva finalidade de atender exigências do mercado. “A rastreabilidade, por exemplo, praticamente tirou o Brasil da condição de exportador de carne bovina para a União Europeia recentemente”, diz o médico veterinário.

Segundo ele, por meio de marcos legais importantes como o novo Código Florestal Brasileiro, é possível atender demandas que contemplam os aspectos ambientais e a manutenção da biodiversidade.  “É evidente que precisamos preservar, cuidar dos impactos e olhar para o futuro, mas isso precisa ser obtido dentro da realidade do país. O Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) tem atuado no incentivo à busca de sistemas alternativos de produção, com uma análise mais crítica daquilo que é cobrado e a visão holística do ambiente”, afirma Barcellos.

Atuação do Médico Veterinário

O médico veterinário tem um papel essencial e amplo na participação na cadeia produtiva das proteínas de origem animal, pois atua do início até a mesa do consumidor. O profissional entra na “porteira” da fazenda com seus conhecimentos de genética, alimentação, manejo, reprodução e saúde animal.  Ele está presente desde o transporte até o processo de industrialização das matérias primas e fiscalização. Tudo para garantir que o produto final seja de qualidade e seguro para consumo.

Ele é o protagonista da fiscalização e da questão higiênico-sanitária; é o guardião da saúde do alimento e o profissional capacitado para atuar de forma adequada na questão do uso de insumos de modo racional – evitando desperdícios, e no uso de medicamentos nos animais de forma adequada, no momento oportuno e necessário.

“O mercado exige um médico veterinário preparado para os desafios atuais e com uma visão sistêmica da sua atuação, e ética. Ele também deve ser antenado às novas tecnologias e ter uma visão menos produtivista e mais humanista”, afirma Barcellos.

Para o ex-presidente da Comissão Nacional de Educação da Medicina Veterinária do CFMV, Rafael Gianella, durante a graduação é difícil o estudante ter uma visão sistêmica de toda a cadeia de produção de proteína animal, como, por exemplo, das partes econômica, nutricional, saúde animal, técnicas de manejo, e outras.

“O aluno é exposto a pontos específicos e perde a visão do todo. Ele aprende separado as matérias. As instituições de ensino deveriam mostrar aos estudantes a importância do setor. Não só da questão saúde humana e animal, mas bem como a colaboração do profissional na economia dos países, e como o médico veterinário pode atuar no setor aumentando e melhorando a qualidade de vida da sociedade”, finaliza Gianella.

Desafios do Mercado

Na opinião dos profissionais, os clientes estão mais conscientes dos sistemas produtivos. A certificação, alimentos orgânicos e nutracêuticos devem pautar o mercado no futuro. O grande fluxo de produtos perecíveis, como a carne, por exemplo, exigirá novos procedimentos sanitários e simultaneamente maiores riscos de eventos de enfermidades nos animais.

Cada vez mais, os serviços veterinários têm se tornados essenciais e vitais para a Saúde Única – humana, animal e meio ambiente. O surgimento de novas doenças e a resistência a muitos medicamentos e produtos veterinários, em particular aos ectoparasitas, serão um dos grandes desafios para produção, especialmente nas regiões tropicais.

Júlio Barcellos revela que não basta médicos veterinários bem preparados e conscientes para atuar no mercado, no país ainda há grandes desafios a serem enfrentados, como a logística, a informalidade da cadeia produtiva (especialmente na carne bovina e no leite), a diminuição da mão de obra rural e a convivência com o equilíbrio no uso dos recursos naturais.

Maximizar os recursos, evitar desperdícios e construir marcos regulatórios mais factíveis com a realidade brasileira também são outras metas a serem alcançadas pelo governo do país.  “A nação tem todas as condições de abastecer a sua população e ainda continuar seu papel de liderança no agronegócio mundial”, finaliza o presidente da Conap/CFMV.

Discussão Mundial

Os desafios atuais da produção de proteína animal foram discutidos, este ano, durante uma conferência internacional, realizada no Reino Unido.

Na pauta estavam questões decorrentes como aumento da população, urbanização, mudanças climáticas e do aumento do consumo de proteína animal. O médico veterinário Júlio Barcellos, presidente da Conap/CFMV e coordenador do Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva daUFRGS (Nespro) foi um dos palestrantes.

Em setembro, o trabalho do Nespro foi agraciado com o prêmio Destaque Medicina Veterinária, na categoria Pesquisa. A premiação é concedida pelo Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado do Rio Grande do Sul (CRMV-RS) a pessoas e instituições que contribuíram para o fortalecimento das profissões e do agronegócio no Rio Grande do Sul.

Fonte Assessoria de Comunicação do CFMV