Como moderador, o professor Javier Burchard iniciou o debate do módulo Simplesmente Água percorrendo momentos históricos de criação do planeta Terra, como o Big Ben, o surgimento da membrana celular a partir de material orgânico da água e, em seguida, a existência das bactérias. Tudo isso originando o que ele chama de um “incrível sistema de comunicação que marca o início da evolução das mais diferentes espécies”.

Em algum ponto da história, ele contabiliza que foram bilhões de anos, essas espécies saíram das águas, passaram a ser capazes de respirar oxigênio e a ocupar o meio ambiente fora dos oceanos. Essas espécies continham água em suas estruturas e hoje sabe-se que o corpo humano é composto de 75% a 80% de água. “Basicamente, água representa o maior componente do corpo humano e, de certa forma, somos todos água. Saímos dos mares, com um sistema que preserva água de uma forma funcional, permitindo que haja troca de informações entre e com o meio ambiente. Água é uma molécula fundamental e a mais antiga da Terra”, resume Burchard, que é diretor de Inovação do Council on Dairy Cattle Breeding dos Estados Unidos (USCDCB) e integrante da Comissão Estadual de Saúde Única, do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Paraná (Cesu/CRMV-PR).

De acordo com o professor, em termos de evolução, o homem é uma espécie jovem. No entanto, foi capaz de criar uma quantidade excessiva de poluição que está afetando todas as espécies. Ele relata que hoje temos diferentes contaminantes entrando em nossos corpos e em nossa água, que também poluem o meio ambiente, e defende que precisamos combater a poluição e contribuir de alguma forma para limitar a contaminação.

Como exemplo, nos Estados Unidos, ele tem trabalhado no setor pecuário para melhorar a genética dos animais, a fim de mantê-los saudáveis e com bem-estar, sem usar grandes doses de antibióticos. “Trabalhamos para aumentar a capacidade de responder às doenças de forma natural sem ter de recorrer aos antimicrobianos para curar suas deficiências”, afirma.

A triste realidade, segundo Burchard, é que se não tomarmos medidas contra a poluição, a água continuará existindo, irá sobreviver, e continuará viajando com a Terra pelo sistema solar. “Se não contribuirmos para eliminar ou equilibrar a poluição, há chances de não estarmos nessa jornada”, sentencia.

A Água Esquecida

O engenheiro ambiental Paulo Bernardo Neves e Castro, consultor em saneamento integrado, fez a primeira palestra do módulo sobre o reuso da água, por isso, intitulou sua palestra de A Água Esquecida. “Assim como o corpo humano, cerca de 75% da superfície do nosso planeta é coberto por água e isso nos dá a falsa sensação de abundância dos recursos hídricos. No entanto, apenas 0,026% das águas doces estão disponíveis facilmente para o homem”, revela.

O Brasil tem 23% da água doce do mundo, sendo que grande parte está nos subsolos (aquíferos) e apenas 12% estão diretamente disponíveis. A questão da água não é só de quantidade, mas também de qualidade e acessibilidade. “Esbarramos na dificuldade de distribuição da água disponível, que acontece de forma heterogênea, não sendo igual pelas regiões do país, nem pela ocupação dos espaços”, aponta Castro. A Região Norte, segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), concentra 68% dos recursos hídricos disponíveis, onde está apenas 8,6% da população brasileira. A Região Sudeste, que concentra 42% da população tem apenas 6% da disponibilidade hídrica.

E como se dão os usos da água no Brasil? De acordo com o consultor, dados da ANA indicam que 52% vão para irrigação de plantações (em termos mundiais esse número sobe para 70%); 23,8% para abastecimento urbano, 8% uso animal e o restante para múltiplos usos. “Essa destinação gera conflitos e, para isso, há lei [9.433/1997] que estabelece as prioridades de uso dos recursos retirados dos mananciais. No Brasil, as prioridades são abastecimento urbano e dessedentação de animais”, explica.

Tão importante quanto o uso, é a forma de devolução dela, que requer controle adequado do recurso ao meio ambiente, com qualidade de uso para as diversas demandas, evitando a total degradação. “Vivemos um contexto que requer formas inovadoras de lidar com a água, uma vez que a qualidade da água vai alterar a disponibilidade para cada tipo que se pretende”, diz Castro.

“O reuso é um recurso precioso”, opina Castro e pode acontecer de várias formas, direta ou indiretamente, “como aquele que trata efluente e devolve de acordo com padrões de qualidade, servindo de fonte para cidades vizinhas”, exemplifica. Para ele, o saneamento voltado ao reuso faz sentido no contexto de escassez, pois as águas residuárias carecem de menos logística. No entanto, no Brasil ainda é uma realidade deficitária, haja vista que, em 2017, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apenas 3,6% dos municípios com estações de tratamento de esgoto faziam reuso direto do efluente tratado.

O reuso pode se dar de maneiras diferentes, como recarga de aquíferos, irrigação paisagística e de campos cultiváveis, uso industriais e urbanos não-potáveis. Mas Castro acredita que ainda exista negligência do olhar técnico sobre as formas de reuso no meio urbano. “Vivemos a expansão desse olhar no meio rural. Podemos trazer sistemas de biociclos integrados, e fazer a utilização da água de acordo com o seu uso, com aplicação correta e qualidade para o fim que se destina”, defende. O reuso local também é uma alternativa para minimizar a transposição, otimizando recursos financeiros e logísticos. “Pontos de coleta e de devolução mais próximos”, sinaliza.

Na visão do engenheiro, os desafios do reuso de água passam pela aceitação cultural; pelos cuidados com a salinidade, os poluentes, os micro contaminantes, como resíduos de antibióticos; e por regulamentações distintas para os diversos contextos e cenários do país.

Apesar de ainda não ser uma realidade tão próxima, ele acompanha casos que, ao mesmo tempo, não deixam a possibilidade tão distante. Um exemplo seria o Aquapolo ambiental do ABC Paulista, com capacidade de captar 650 litros de reuso industrial, que passa por tratamento terciário, abastecendo o equivalente a uma cidade de 500 mil habitantes, proporcionando economia ao estado, que passou por estiagem e falta de água nos últimos anos. Outro exemplo são as cisternas e saneamento de algumas escolas da zona rural do município de Barra, do semiárido baiano, que fazem captação de água da chuva e sistemas locais de tratamento de efluentes, permitindo reuso na mesma escola.

Água no Planeta: distribuição, qualidade, consumo e outros desafios à gestão sustentável

A terceira palestra do módulo Água ficou por conta do engenheiro Charles Carneiro, da Secretaria do Desenvolvimento Sustentável e do Turismo do Paraná e ISAE/FGV. Há 20 anos trabalhando como pesquisador, ele abordou aspectos como a distribuição, qualidade, consumo e os desafios da gestão sustentável no país.

De acordo com Carneiro, cerca de 700 milhões de pessoas no mundo hoje não têm acesso à agua de qualidade, para fazer ações básicas, como escovar os dentes, dar descarga, entre outros. O consumo desenfreado e o desperdício do recurso natural pela população, além da perda, que acontece por fatores como roubo, rompimento, problemas de gestão, são também preocupantes.

O pesquisador deu alguns exemplos de escassez e problemas de má gestão que ocorreram ao longo dos anos no Brasil, e afirmou que é necessária uma governança mais eficaz. “A Política Nacional de Recursos Hídricos estabelece vários instrumentos, nenhum deles funciona como deveria no país. Também precisamos de pessoas mais qualificadas. Temos carências de profissionais”, relata.

Problemas com ineficácia administrativa, burocracia exagerada, punição branda ou inexistente para quem age errado, cultura ambiental pobre (dificuldade de economizar água, fazer uma correta gestão de resíduos), serviços de saneamento inadequados e insuficientes são alguns dos problemas apontados por Carneiro.

Ele lembrou que há caminhos para a solução. “Gestão qualificada, planejamento adequado, antecipação de obras. Planejamento e execução são fundamentais. Falar em gestão de água é falar em adaptabilidade. Adaptação é a palavra de ordem”, afirma.

Outro ponto levantado pelo pesquisador é o investimento em educação. “Precisamos melhorar a educação das pessoas. Elas precisam entender que é necessário racionalizar o uso da água. Quando aperta o botão da descarga, a água não vai embora como se fosse mágica. Há toda uma engenharia até esse esgoto ser tratado”, explica.

Para finalizar, o palestrante defendeu ações de suporte (infraestrutura de manejo, tecnologias de alta performance) como caminho para solução do problema e a comunicação como ferramenta de educação. “A informação precisa chegar às pessoas. Não podemos ignorar as mídias sociais, elas são as principais ferramentas de educação”, conclui.

Água x Gestão Urbana

“A água perpassa todas as nossas atividades como humanos, como seres fisiológicos. É uma molécula inerente à vida e temos uma relação de sustentabilidade”. Com essa frase, o professor Harry Bollmann, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), começou a última palestra do módulo de água do simpósio.

Ele trabalha com rios urbanos desde 1982, e desde a preparação da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (Eco 92), e há 40 anos acompanha o discurso evolutivo da sustentabilidade no Brasil, inclusive sobre a gestão das águas. A partir de 92, começaram os desdobramentos e foi possível negociar protocolos internacionais. “No entanto, alguns deles praticamente desapareceram, como a Agenda 21, e outros acabaram sendo construídos”, afirma. De um caráter utópico, teórico e conceitual, o discurso de sustentabilidade do Brasil passou a ser encarado, no contexto de gestão das cidades, como atitudes práticas e locais. “Iniciativas que os governos locais, as pessoas e as comunidades conseguem realizar para melhorar a qualidade ambiental, do ar, das águas e que melhoram também a sua própria qualidade de vida individual e coletiva”, explica.

Nessa nova estrutura de encarar as questões de sustentabilidade das cidades, o professor conta que surgiu um discurso de nexo entre água, alimentos e energia, considerados itens prioritários de sobrevivência e prosperidade das populações, especialmente com qualidade de vida ao longo prazo. “Conseguiram transformar em indicadores de sustentabilidade, os anseios de qualidade de vida, envolvendo aspectos econômicos, sociais, culturais, ambientais e até psicológicos voltados para realidade imediata da população, identificando os prioritários”, enumera.

E nesse contexto, ele lembra, foram construídos os indicadores de Curitiba, mas faltavam argumentos de priorização. Nesse nexo entre água, alimentos e energia, desde 2000, o grupo de gestão e pesquisas ambientais da PUC-PR, em seu programa de gestão urbana, vem estudando os desafios nas gestões das águas na região metropolitana de Curitiba, especialmente da bacia hidrográfica do município, banhada pelo Rio Belém. “Se quisermos entender a sustentabilidade a longo prazo numa cidade, precisamos entender como ela faz a gestão de suas águas”, afirma Bollman.

A bacia nasce ao norte da capital paranaense, passa por todo o centro da cidade, e sua foz está ao sul, onde encerra no Rio Iguaçu. É uma bacia inteiramente dentro do município de Curitiba e com todos os contrastes de uma grande cidade, com processos sociais e ambientais acontecendo, “onde os compartimentos naturais (água, ar, solo, flora e fauna) são sobrepostos pela paisagem urbana, que esconde e modifica o ambiente natural, expondo essa interface antropogênica entre as pessoas e das pessoas com o ambiente”, relata.

Com o estudo, o professor menciona que, desde a nascente até a foz do Rio Belém existem melhorias identificadas, especialmente nas pontas. Mas, no meio do curso do rio, a qualidade da água ainda está comprometida com micro e macro poluentes, justamente onde a cidade tem maior densidade populacional.

Segundo o professor, no Brasil há um problema sério de gestão da água, mas “basicamente ainda estamos nos digladiando entre interesses individuais e coletivos”. A Constituição Federal garante um compartilhamento entre governos federal, estaduais e municipais e população. Ele afirma que existe um cenário institucional, uma estrutura legal moderna e adequada de gestão das águas, mas o resultado desse arcabouço não se torna realidade concreta, pois há algo nesse processo que ainda necessita de crescimento em termos de gestão e planejamento.

CFMV