18 de janeiro de 2016

Os militares brasileiros integram diversas missões da Organização das Nações Unidas (ONU) pelo mundo. Entre tantos desafios diários em zonas de conflito estão as doenças infecciosas. Água e alimentos contaminados, enfermidades transmitidas por vetores e zoonoses, as doenças transmitidas entre animais e os seres humanos foram responsáveis pela baixa temporária e morte de muitos soldados nas guerras ao longo dos tempos.

Os riscos biológicos reforçam a necessidade da presença de médicos veterinários nas missões militares de forma a garantir a continuidade dos trabalhos. Esses profissionais atuam nas Forças Armadas de países como Estados Unidos, França, Inglaterra e Espanha há mais de 100 anos.

O Exército Brasileiro contou com a participação pontual de um médico veterinário militar durante uma missão em Angola, nos anos 90, após um surto de malária que vitimou três soldados brasileiros. Em 2005, foram avaliadas, durante uma semana, as condições sanitárias da tropa no Haiti.

Somente em 2009, o primeiro médico veterinário militar integrou, de forma permanente, um contingente do Batalhão Brasileiro de Força e Paz (Brabat) no Haiti, o que acontece até hoje. O primeiro profissional de Medicina Veterinária a participar da missão, o Major José Roberto, conta que a situação de higiene do país é precária, onde praticamente não existe água tratada e esgotamento sanitário.

“Protegemos a saúde da tropa deixando os militares em condições de combate, prevenindo surtos de gastroenterite transmitidos pela água e alimentos contaminados, evitando zoonoses e outras doenças transmitidas por vetores como malária, leishmaniose, dengue, cólera”, afirma.

Entre as tarefas do médico veterinário estão a inspeção do recebimento e preparo dos alimentos, vigilância da higiene e qualidade da água consumida, gestão ambiental, com foco na gestão de resíduos e o controle de vetores. Além disso, o médico veterinário cuida da vigilância epidemiológica de zoonoses e gastroenterites em conjunto com a Unidade Médica e faz ações de educação em saúde para os militares que integram a missão.

Saúde Única

No artigo “ Saúde Única e operacionalidade nas Missões de Paz”, publicado na Revista do Exército dos Estados Unidos, o major José Roberto faz uma análise da importância do trabalho dos médicos veterinários militares na garantia da Saúde Única. A união indissociável entre a saúde humana, animal e ambiental torna fundamental uma ação integrada entre as áreas de saúde para prevenir doenças.

“É estratégica a participação dos médicos veterinários militares no planejamento, preparo, desdobramento no terreno e desmobilização das tropas em Missão de Paz, levantando riscos, planejando e conduzindo ações preventivas em conjunto com a equipe de saúde”, conta o major José Roberto.

Major José Roberto no Haiti.

O tenente Tagor Andreolla Dorneles é médico veterinário e se prepara para atuar no Haiti no segundo semestre deste ano. No exterior, ele irá atuar em uma área da Medicina Veterinária diferente da que está atualmente, a clínica de equinos. Por isso, desde que foi selecionado para a missão, participa de cursos e treinamentos específicos, como segurança na manipulação de alimentos e controle de vetores e zoonoses.

“Participar de uma missão em território estrangeiro aplicando conhecimentos veterinários dentro do conceito de Saúde Única para a tropa é bastante instigante e motivador”, conta Tagor.

O médico veterinário no Exército Brasileiro

O médico veterinário formado pode ingressar no Exército Brasileiro por duas vias, como temporário, ou militar de carreira ao passar no concurso anual da Escola de Formação Complementar do Exército (EsFCEx). As áreas principais de atuação são:

– Inspeção de Alimentos, atuando em um dos 18 Laboratórios de Inspeção e Bromatologia (LIAB), responsável pela análise físico-química e microbiológica da maior parte dos alimentos comprados para consumo da tropa e dos animais;

– Atuação no manejo, reprodução, atendimento clínico-cirúrgico e adestramento dos animais de emprego militar, cerca de 2 mil equinos e 600 cães de guerra, e animais silvestres em alguns zoológicos e criadouros sob responsabilidade militar;

– Gestão Ambiental e controle de zoonoses, vetores e pragas, orientando as Organizações Militares (OM) na adequação de suas missões às normas ambientais, promovendo ações de Educação Ambiental, Saúde Ambiental e Bioproteção;

– Segurança de alimentos, realizando auditorias de boas práticas nas organizações militares com local de preparo de alimentos, assim como orientando práticas preventivas para evitar surtos de gastroenterites;

– Outras missões diversas como: produção de soro antiofídico no Instituto de Biologia do Exército (IBEx), apoio a atividades esportivas no hipismo como os Jogos Olímpicos Rio 2016, Defesa Química, Biológica e Nuclear (DQBN), protegendo alimentos, animais e participando das pesquisas no tema; pesquisa científica, entre outras.

Assessoria de Comunicação do CFMV