O Dia Nacional da Nutrição, 31 de março, tem um importante papel na conscientização sobre a necessidade de um aporte adequado de nutrientes essenciais para a vida humana ou animal, sejam os macronutrientes (proteínas, lipídeos e carboidratos) ou os micronutrientes (minerais e vitaminas). A data lembra que uma boa manutenção da saúde depende da ingestão de nutrientes de forma balanceada, seja para prover suporte à manutenção diária ou para modulação nutricional celular correta em casos de enfermidades.

Uma dieta associada a uma suplementação adequada tem potencial para atuar na prevenção e ser coadjuvante ao tratamento de doenças crônicas, como diabetes, além de prevenir a obesidade e até mesmo alguns tipos de câncer.

A seguir, a importância da boa nutrição animal é abordada pelo médico-veterinário Ronald Glanzmann, com vasta atuação em nutrição clínica, e pelo zootecnista José Humberto Vilar da Silva, mestre e doutor com experiência na área de nutrição de animais de pequeno porte.

Ronald Glanzmann, médico-veterinário, com experiência em nutrição clínica

Qual a importância da atuação de médicos-veterinários e zootecnistas para a nutrição animal?

Assim como na medicina humana, a saúde e alimentação e suplementação estão intrinsecamente relacionadas, atuando na longevidade, prevenção de doenças e bem-estar, além de serem coadjuvantes aos tratamentos. A nutrição também está associada à maior produtividade dos animais, sendo de extrema importância em criações. Cada animal possui necessidades específicas, as quais são intensivamente estudadas ao longo da graduação de Medicina Veterinária e Zootecnia.

Qual a sua recomendação em tempos de pandemia?

Em tempos de pandemia, acredito que a nutrição animal pode vir a auxiliar na saúde dos nossos pets. Com a pandemia, muitos locais estão sofrendo restrições e até mesmo proibidos de funcionar. Os parques eram locais onde as pessoas costumavam levar seus cachorros para passear, estimulá-los ao exercício e expô-los à luminosidade natura do sol, situações de extrema importância para nossos amigos de quatro patas.

Outro fator é que muitos tutores têm medo de sair de casa, às vezes por morar com alguém ou por serem classificados como grupo de risco da covid-19, e assim, as visitas ao médico-veterinário são menos frequentes. O conjunto da obra pode levar a déficits na saúde dos pets, que nem sempre são visíveis aos olhos do proprietário, mas estão presentes. A nutrição pode atuar nesse âmbito, suprindo as necessidades dos animais, que podem estar deficitárias nesse momento caótico. Os suplementos podem repor o que falta, e melhorar o que os animais já têm, mantendo-os saudáveis mesmo em períodos de crise. Em tempos de pandemia, é fundamental manter a modulação da imunidade em alta e promover ações de biossegurança no animal e no ambiente, com desinfetantes padrão ouro.

O que é medicina veterinária integrativa? Qual a sua importância?

O conceito da medicina funcional integrativa, utiliza os princípios da nutrição funcional, que direciona o tratamento para a causa da doença, não somente para sua consequência, utilizando abordagens que capacitam o organismo a produzir resposta imunológica ou bioquímica ativa contra a patologia, com base na modulação atividade bioquímica celular via suplementação correta.

Já a nutrição clínica está relacionada ao direcionamento dos macro e micronutrientes de forma adequada nas situações de animais convalescentes e/ou debilitados, por meio de uma alimentação enteral balanceada, seja natural ou industrializada. Ela pode ser associada à medicina funcional integrativa, de modo que a suplementação com os nutrientes e nutracêuticos corretos pode ser utilizada tanto na prevenção quanto no tratamento de uma determinada doença, podendo ser associada a protocolos clínicos tradicionais, visando acelerar a recuperação e proporcionar a qualidade de vida do paciente.

O que é nutrição funcional? Qual a sua importância?

A nutrição funcional é um conceito já existente na medicina humana e vem ganhando cada vez mais espaço na Medicina Veterinária, pelo aumento na busca dos tutores por uma alimentação sadia e equilibrada para seus animais. Trata-se de uma abordagem que visa à restauração e manutenção da saúde do organismo, em nível celular e molecular, e pode estar associada com a diminuição dos riscos de algumas doenças crônicas, assim como no auxílio ao tratamento de animais enfermos.

Existem diversos fatores que podem interferir no equilíbrio do organismo, desde eventos fisiológicos (lactação, gestação, animais senis e animais atletas) a eventos patológicos (doenças em geral), os quais interferem na integridade celular e na produção de componentes que deveriam ser normalmente produzidos pelo organismo (aminoácidos essenciais, hormônios, enzimas, imunoglobulinas e determinadas vitaminas). É sempre comum na convalescença, sendo determinante o uso de suplementação moduladora nessa situação.

A ideia de nutrição funcional aborda a incorporação de suplementos na rotina de prescrição do médico-veterinário moderno, com o intuito de aumentar a qualidade nutricional das rações existentes no mercado e/ou auxiliar e intensificar a recuperação de animais debilitados, acelerando o progresso do tratamento. Nesses contextos, a suplementação nutricional funcional assume um papel importante e de grande relevância para uma abordagem clínica ampla e eficiente.

Qual o paralelo entre a bioquímica da nutrição humana e da nutrição animal?

A fisiologia do organismo dos animais muito se assemelha com a do organismo humano. Assim como nós, os animais possuem necessidades específicas nutricionais, a depender de diversos fatores, como idade, condições fisiopatológicas e estilo de vida. Antigamente, a nutrição animal era baseada em teores máximos e mínimos de componentes e nutrientes necessários para a sobrevivência do animal. Hoje em dia, sabe-se cada vez mais que, assim como na medicina humana, é necessária uma abordagem que leve em conta outros aspectos e entenda que o papel da nutrição vai muito além da sobrevivência e está intrinsecamente ligado à promoção da saúde, longevidade e bem-estar dos nossos animais. O conhecimento e uso médico da bioquímica de forma correta promovem modulações e respostas rápidas orgânicas na recuperação e manutenção de animais convalescentes.

Poderia explicar o que é a implantação do protocolo 4R de restabelecimento da saúde animal na rotina clínica veterinária?

O protocolo 4R pode ser utilizado focando diferentes sistemas orgânicos e, quando o sistema gastrointestinal é priorizado, seu objetivo se torna restabelecer a saúde intestinal, o que ocorre paralelamente ao tratamento de rotina de pacientes enfermos.

A microbiota intestinal é fator chave para restabelecimento e manutenção do sistema imunológico capacitado. Sendo assim, o emprego do protocolo 4R tem como função reduzir o tempo de internação e a taxa de mortalidade dos pacientes enfermos, uma vez que, garantindo a integridade do intestino, a capacidade de absorção de nutrientes e medicamentos pela via oral é mantida, além de a modulação imunológica dar suporte para garantir a resposta terapêutica. Costumo dizer, como metáfora, que o protocolo 4R seria como aquele quadro “Lata Velha”, no programa do Luciano Huck, que restaura carros destruídos, primeiro limpando e eliminando o que é ruim, depois repondo e remodelando estruturas, no entanto, com foco no intestino.

O protocolo 4R é dividido em 4 etapas:

Remover: remover toxinas, bactérias, fungos, parasitas, protozoários, medicamentos inadequados e alérgenos.

Repor: reposição eletrolítica, nutricional, hormonal e enzimática necessária ao caso.

Reinocular: reinoculação de bactérias benéficas.

Reparar: reparação dos danos celulares na mucosa intestinal e da capacidade imunológica.

O que o senhor destacaria como relevante no contexto da nutrição?

É importante ressaltar que o melhor da medicina está por vir. A grande certeza é de que tudo que era chamado de medicina alternativa tende a se transformar na medicina principal, e a medicina tradicional alopática principal tende a se transformar na medicina alternativa, utilizada em últimas opções, porque cada vez mais os médicos humanos e veterinários descobrem que os organismos de seres humanos e animais não são formados de fármacos, mas de nutrientes, os quais são mais de 400 que interagem promovendo a vida. Homeopatia, fitoterapia, florais frequenciais, suplementação de modulação, ozonoterapia, células-tronco, biorressonância entre outras terapias prometem cada vez mais ocupar espaço importante na medicina do futuro, tanto humana quanto veterinária.]

Panorama da Nutrição de Não Ruminantes, por  José Humberto Vilar da Silva
Zootecnista com experiência em nutrição de animais de pequeno porte
Mestre e Doutor pela Universidade Federal de Viçosa e PD ela University of Georgia – USA

A boa nutrição animal depende da eficiência com que os nutrientes da dieta cheguem a todas as células do corpo animal em taxas suficientes para garantir o máximo desempenho. O melhoramento tem alterado anualmente a genética dos animais e novos padrões nutricionais são estabelecidos. Por exemplo, o suíno tipo banha de meados do século passado exigia menos aminoácidos do que as linhagens modernas, que possuem alta proporção de tecidos magros na carcaça. Tendência semelhante também ocorre no melhoramento genético de frangos, perus e galinhas.

Um foco importante da nutrição é a qualidade dos ingredientes das dietas. Um farelo de soja mal processado e um milho contendo microtoxinas comprometem o ganho de peso, a conversão alimentar e a viabilidade do plantel de frangos e suínos, logo, o crescimento de leitões, pintos e pintainhas é muito afetado. Dietas peletizadas, expandidas e extrusadas alteram fisicamente o alimento e a estrutura dos macronutrientes dos grãos e aumentam a digestibilidade, o comportamento alimentar e a eficiência de aproveitamento dos nutrientes pelos animais.

Apesar de os antibióticos serem muito eficientes como enaltecedores do desempenho, são suspeitos de causar mutações e resistência cruzada nos patógenos a antibióticos de uso terapêutico na medicina humana. A tendência é a proibição dos antibióticos nas dietas e uso dos aditivos biotecnológicos (probióticos, prebióticos, simbióticos), óleos essenciais e ácidos orgânicos que atendam às demandas de segurança alimentar dos consumidores. Portanto, esses produtos contribuem para a resiliência dos animais aos patógenos ambientais por diferentes mecanismos de ação, como imunomoduladores ou exclusão competitiva.

Por outro lado, existe grande preocupação em mitigar a emissão de poluentes nocivos derivados dos resíduos das dietas, como os gases amônia, sulfito e metano, que poluem o ar afetando a saúde do trabalhador, de moradores no entorno das granjas e dos animais, sendo o último um dos gases mais importantes no efeito estufa. De forma semelhante, os resíduos sólidos das excretas dos animais são grandes poluidores potenciais do solo e dos corpos de água, induzindo o processo de eutrofização deles e os tornando inviáveis para uso doméstico, recreação, industrial e vida aquática.

Além dos pontos levantados acima, a boa nutrição tem o desafio de levar aos trilhões de células do corpo animal cerca de 60 nutrientes, alguns presentes em porções tão reduzidas como parte por bilhão (ppb), caso de alguns minerais, e outros em grandes proporções, como proteínas, lipídeos e carboidratos. Os nutrientes devem garantir a divisão, crescimento e diferenciação celular e dependem da ativação da rede de 20 a 23 mil genes presentes no DNA de cada ave.

O passo adiante é o uso de robôs inteligentes, capazes de identificar sinais de desnutrição entre as aves nos galpões e emitir alertas em tempo real, 24 horas por dia, de correção das fórmulas das dietas, tornando a nutrição animal mais individualizada. Na fábrica de ração de tecnologia 4.0, os alimentos, após processados, analisados e as dietas fabricadas, chegam aos comedouros em velocidade impossível de ser atendida pelo trabalho humano. Nessa indústria, portanto, a maioria dos empregos atuais será extinta e novos postos de trabalho para zootecnistas versados nas novas tecnologias deverão surgir.

A nutrição corresponde a mais de 65% do custo de produção dos animais não ruminantes. Oferecer dietas que atendam com precisão às demandas de cerca de 60 nutrientes é um grande desafio para os zootecnistas. Em resumo, a boa nutrição animal, hoje, é mais holística e sistêmica do que aquela praticada antes da virada do milênio. O surgimento das ciências ômicas (nutrigenômica, proteômica e metabolômica) aumentou a compreensão das complexas interações no metabolismo dos cerca de 60 nutrientes da dieta. A expressão de genes e macromoléculas, como as proteínas, com o fenótipo dos animais está promovendo um grande avanço na Zootecnia.

Assessoria de Comunicação do CFMV