O relatório publicado recentemente pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e Instituto Internacional de Pesquisa Pecuária (ILRI) aponta dez recomendações para evitar o surgimento de novos surtos de doenças zoonóticas. Os autores identificam a Saúde Única, que une conhecimentos em saúde pública, veterinária e ambiental, como o melhor método para prevenir e responder aos surtos de doenças zoonóticas e pandemias.

As dez ações práticas que os governos podem tomar para evitar surtos futuros, segundo o relatório “Prevenir a Próxima Pandemia: Doenças Zoonóticas e Como Quebrar a Cadeia de Transmissão” são:

1 – Investir em abordagens interdisciplinares, como a Saúde Única;

2 – Incentivar pesquisas científicas sobre doenças zoonóticas;

3 – Melhorar as análises de custo-benefício das intervenções para incluir o custo total dos impactos sociais gerados pelas doenças;

4 – Aumentar a sensibilização sobre as doenças zoonóticas;

5 – Fortalecer o monitoramento e a regulamentação de práticas associadas às doenças zoonóticas, inclusive de sistemas alimentares;

6 – Incentivar práticas de gestão sustentável da terra e desenvolver alternativas para garantir a segurança alimentar e meios de subsistência que não dependam da destruição dos habitats e da biodiversidade;

7 – Melhorar a biossegurança, identificando os principais vetores das doenças nos rebanhos e incentivando medidas comprovadas de manejo e controle de doenças zoonóticas;

8 – Apoiar o gerenciamento sustentável de paisagens terrestres e marinhas, a fim de ampliar a coexistência sustentável entre agricultura e vida selvagem;

9 – Fortalecer a capacidade dos atores do setor de saúde em todos os países;

10 – Operacionalizar a abordagem da Saúde Única no planejamento, implementação e monitoramento do uso da terra e do desenvolvimento sustentável, entre outros campos.

O documento identifica que a tendência crescente de doenças zoonóticas é impulsionada pela degradação ambiental e pela exploração da vida selvagem. Ainda conclui que a África, em especial, por ter enfrentado várias epidemias zoonóticas, incluindo os recentes surtos de ebola, pode ser uma fonte de soluções importantes para conter futuros surtos.

Monitoramento de fauna

O médico-veterinário Ricardo Dias, professor do Laboratório de Epidemiologia e Bioestatística da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (FMVZ-USP), alerta que a Ásia e a América Latina, especialmente o Brasil, por conta da Amazônia e da Mata Atlântica, também são hotspots (áreas de grande biodiversidade) com potencial de doenças zoonóticas que poderiam se tornar pandêmicas. “Existem estudos anteriores à quarentena de covid-19 sobre a iminência do surgimento de doenças epidêmicas emergentes dessas regiões”, afirma.

Como no Brasil as fontes de financiamento de pesquisa são governamentais, e elas devem sofrer cortes em função da dificuldade econômica do país frente à pandemia, Dias defende, para monitorar a fauna, que os órgãos de fomento à pesquisa foquem em projetos abrangentes, direcionando um volume maior de recursos para grupos competentes. “Não são projetos triviais: envolvem grande logística, normalmente em locais sem infraestrutura e, por esse conjunto, acabam sendo caros”, explica.

Além disso, avalia que o monitoramento não seja feito exclusivamente em áreas conservadas, mas também na fauna urbana. “Alguns pesquisadores estão tentando fazer a ecovigilância de SARS-CoV-2 em animais na mata ou em áreas conservadas. O foco deveria ser invertido e voltado para áreas urbanas, totalmente negligenciadas”, reforça.

Para a Saúde Única decolar do papel, o professor aposta em projetos multicêntricos, com pesquisadores de áreas distintas e políticas de financiamento, ensino e pesquisa, apesar de setorizadas, voltadas a um objetivo único. “Quem tem a chave para fazer essa integração são os gestores de cargos executivos dos órgãos de fomento, das universidades e até da própria comunidade científica”, complementa.

Adicionalmente, convencido de que a pesquisa é de extrema relevância para a seguridade nacional, o professor reconhece que os docentes e as universidades precisam incentivar os alunos a trabalhar em campo.

Science

revista Science também publicou um estudo que analisa as relações de custo-benefício da ausência de monitoramento e prevenção da disseminação de doenças zoonóticas, associadas à perda e fragmentação das florestas tropicais e ao crescente comércio de animais silvestres.

De acordo com os pesquisadores, atualmente investe-se relativamente pouco na prevenção do desmatamento e na regulamentação do comércio de animais silvestres, apesar dos planos que demonstram um alto retorno de investimento na limitação de zoonoses.

Para os estudiosos, à medida que o financiamento público em resposta à pandemia de covid-19 continua a aumentar, a análise sugere que os custos associados a esses esforços preventivos teriam sido substancialmente menores que os custos econômicos e de mortalidade envolvidos após o surgimento do patógeno.

Acesse o estudo completo (em inglês).

Assessoria de Comunicação do CFMV, com informações do Pnuma.